Nicholas estava sentado na sua cama do hotel.
Tinha sido uma longa viagem, mas valera a pena. A atmosfera melancólica de Londres fazia-o sentir, estranhamente, melhor. Ao seu lado estava um livro de Agatha Christie, uma das suas autoras favoritas. Além disso, encontrava-se também uma caneca de café já frio e uma data de folhas rabiscadas com alguns versos desinteressantes. Não sabia o que fazer naquela noite gelada. Já tentara dormir, porém falhara miseravelmente.
Encontrava-se em Londres devido à viagem de finalistas, organizada pela sua professora de Inglês. Com ele, no quarto, estava o seu namorado, Charles.
Levantou-se com cuidado e calçou as pantufas peludas que estavam debaixo da cama, dirigindo-se até à varanda do hotel, onde percorreu os dedos pela porta de vidro, puxando-a.
O barulho da porta emperrada acordou Charles. O aspecto informal deste causou uma risada nada intencional em Nicholas, que usou a mão para abafá-la com a maior rapidez que pôde, embora ainda se conseguisse ouvir alguns resquícios das gargalhadas. Não era comum Charles ter o cabelo tão desleixado e espevitado, de tal forma que se podia muito bem notar os caracóis negros e rebeldes que ali protestavam contra as quantidades grandessíssimas de gel, além de spray, que era expostos diariamente.
- Desculpa. - disse finalmente Nicholas, voltando à sua cama somente para pegar a chávena de café gelada. O café sabia-lhe melhor assim.
- Que horas são? - perguntou o outro, puxando prontamente o telemóvel debaixo da almofada. - Duas e vinte e seis da manhã? Por que estás acordado?
- Não conseguia dormir. - disse o loiro, virando-lhe as costas. Incitou os pés até à varanda, voltando a puxar a porta para o lado até a abrir na totalidade.
Em seguida, volveu os olhos escuros pela atmosfera nocturna que reinava naquela cidade cinzenta, encantado pela visão que estava a receber. Pontinhos dourados, todos eles muito afastados uns dos outros. Estrelas, se preferirem. Raras belezas que completavam aquele imenso céu negro. E, por poucos segundos, observou um traço amarelo a cobrir parte dos pontinhos minúsculos. Percorria o céu como se nada fosse, desaparecendo quase instantaneamente.
Ouviu um barulho. Era Charles, que acabara de entrar na varanda, fechando a porta atrás de si para evitar arruinar a eficácia do aquecedor de quarto.
- Somos tão poucos. Pensei que fossemos mais.
- Sim. - disse, virando-se para o moreno. - Muitos desistiram de vir.
- Eles é que perdem. - coçou a nuca e tirou a chávena das mãos de Nicholas, bebericando-a. - Isto está gelado.
Nicholas abriu um sorriso genuíno e apoiou as mãos nas extremidade da varanda. Inclinou um pouco a cabeça e viu a imensidão que era o hotel. Eles estavam, muito provavelmente, num dos últimos andares do edifício.
- Este lugar tem alguma coisa mágica. Esta atmosfera é simplesmente perfeita.
- Concordo contigo. Esta viagem de finalistas foi a melhor coisa que já me aconteceu na vida. - disse Charles, apoiando a caneca numa pequena mesa de vidro ao seu lado.
Nicholas olhou para Charles e costurou outro sorriso no rosto, apoiando a cabeça num dos ombros dele. - Amo-te.
- Também te amo - respondeu o moreno. - Tenho tanta sorte por te ter ao meu lado.
Nicholas puxou-o contra si e abraçou-o como se aquela fosse a última noite de sempre.
- Para sempre juntos?
- Para sempre juntos.
E beijaram-se. Nunca um beijo soube tão certo como aquele. Naquele preciso momento e local, nada mais importava.

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