sexta-feira, 2 de junho de 2017

Dor

Dói.
Saber que nunca seremos o que ele procura, o que ele precisa, o que ele quer. E culpamos-nos a nós próprios, por não sermos suficientemente bonitos, interessantes, magros, altos, baixos, loiros, morenos, ruivos, seja o que for.
Olhamos para o espelho e só vemos o negativo. O superficial, que muitas das vezes não corresponde às nossas expectativas. E massacramos-nos a nós mesmos, a culpa é nossa por não corresponder aos padrões da sociedade. A dor é nossa, só nossa e sempre será.
Dói saber que esta batalha que temos contra nos próprios nunca será ganha, pelo contrário, estamos destinados a perder, mas isso não nos impede de nos odiar. Cada centímetro do nosso corpo, de cima abaixo, de baixo para cima.
Não me consigo lembrar da última vez que olhei para um espelho e gostei do que vi. Da última vez que disse ou pensei algo positivo sobre mim mesmo. Da última vez em que não chorei para adormecer, sabendo como me iria sentir mal no dia seguinte. E no próximo. E depois desse, também.
Não sei o que sinto, mas sei o que quero sentir. Quero sentir-me feliz comigo mesmo, mas é tão difícil. É mesmo muito difícil.
Às vezes penso que seria melhor desaparecer.
Como seria bom, não me sentir todos os dias cansado, com raiva. Como é bom estar deitado na cama, a olhar para o nada, a pensar em nada. Simplesmente estar ali, a existir, a respirar. A dor continua lá, mas por momentos, fica camuflada.
O nada acolhe-me. Embala-me nos piores dias, faz a dor e o ódio desaparecer momentaneamente.
Mas não sei se isso é um bom sinal.
Talvez esteja destinado a nada. Talvez o nada seja o que eu deva fazer, talvez a minha existência não tenha um propósito concreto.
E, acreditem, isso dói.